Entrevista com o desenhista Wilton Pacheco

by Pepilegal

Saudações leitores…

Esta entrevista foi realizada ontem a tarde com o desenhista Wilton Pacheco. O que vocês irão ler é uma reprodução quase total do que foi um papo descontraído e muito interessante. Apesar de um felino psicopata que vive em minha humilde residência saltar com suas garras sobre o ESC do teclado e apagar metade da entrevista, o log da conversa que peguei posteriormente com o Wilton serviu para concluí-la. Ainda não dei uma surra no felino salafrário, prometo que faço isso em breve. Espero que vocês gostem da entrevista tanto quanto eu gostei de fazê-la.

Wilton, qual foi o momento em que você sentiu que desenhar seria sua profissão?!
Tinha bastante gibi em casa, dos mais variados tipos, e passava desenho animado na televisão. Quando vi aquelas revistas todas, de agente secreto, com Mandrake, detetives e super heróis. Desenhos japoneses como Speed Racer, Pirata do Espaço, Patrulha Estelar. Além da Disney mostrando como se faz animação, desenhos educativos, muita coisa antiga reprisando. Para mim, ao menos, era um mundo fantástico. E já que eu conseguia desenhar melhor que meus colegas. Eu já me imaginava como o futuro criador de histórias como essas. Isso foi bem antes de aprender a escrever. E aumentou muito o desejo com o tempo.

De todos esses, qual era realmente seu preferido?
Depende da época. Nossa cabeça muda de acordo com a idade. No início acho que era o mundo Disney. Hanna Barbera também, com histórias de gênios e espada, heróis de todos os gêneros e épocas. Mas Hanna Barbera não era tão forte nos quadrinhos. Eu só tive contato com desenho mesmo dos personagens (Além da definição limitada da tv) num álbum de figurinhas. Foi ali que eu consegui desenhar um personagem diferente dos Índios que minha mãe me ensinou.

Eu sempre adorei HQs, desde meus 4 anos de idade. Mas quando li Crise nas Infinitas Terras da DC Comics um novo horizonte se abriu pra mim. Eram tantos heróis e uma saga épica, fora os desenhos do George Perez. Aquele momento foi meu marco zero e a dupla Wolfman/Perez meus primeiros ídolos. Gostaria de saber qual desses foi seu marco zero, qual desenhista/roteirista/artista foi sua 1ª inspiração?
Eu nasci em 70… Isso significa um período muito pobre na animação de super-heróis na televisão brasileira. Mas tínhamos reprises de desenhos de outras épocas e muito material cultural. Época da ditadura. Meu irmão tinha sete anos mais que eu, então tínhamos obras-primas em casa em termo de quadrinhos. Temáticas adultas, roteiros elaborados e desenhos bem feitos. O primeiro que me influenciou realmente foi a Disney, mas depois foi Solar, o homem átomo. Allan Moore respeita a física. Mas esse quadrinho, da década de 60, que foi impresso em preto e branco com o uso do magenta. Era algo único, não havia Frank Miller, não havia Alan Moore. Mas havia outros que tinham domínio, fora do mundo Marvel e fora do mundo DC. Porém não havia nada, praticamente nada descente de ficção científica pura. Toda essa maçaroca me influenciou.

Eu li o Solar nos anos 80, revistas antigas do irmão de um amigo e realmente eram boas histórias e eram baratas. Alias, Fantasma e outros personagens foram escritos e desenhados por artistas brasileiros por falta de material original. Sempre achei fundamental o papel dessas revistas mais baratas. Hoje em dia as HQs estão caras demais para o padrão brasileiro. O que você acha disso?
Temos todos os tipos de preços hoje em dia. Que variam de editora para editora. Temos materiais de quadrinhos impensados antigamente. Fanzines vieram com outro formato, produção independente do passado tem outro nome. Não podemos dizer o quadrinho está caro. O caso é que antes você podia imprimir em papel jornal, fazer uma capa colorida e chamar de revista. Hoje estão fazendo isso e chamando de fanzine.

O mercado editorial americano evoluiu muito na área de HQs, e o brasileiro foi obrigado a evoluir também, o que fez diminuir ainda mais a produção nacional. Você acha que é possível hoje, uma revista totalmente brasileira de HQs estar nas bancas por um preço acessível? Ou apenas como edição de luxo?
Se eu pegar um quadrinho de 1979 da Marvel e pegar outro de agora, 2009, não têm comparação. O formato, o papel, a impressão. O Homem- aranha de 1979 custava 15 cruzeiros e o salário mínimo da época era de 2268 cruzeiros, isso significa 0.6% do que um assalariado recebia. Agora o salário mínimo é de 415 reais e pelo percentual, aquele formato sairia em torno de 3 reais. A5, papel jornal, com um processo de cor muito distante do processo fotográfico europeu ou do atual. O milagre econômico da ditadura militar se desfez bem antes. E os álbuns de luxo da época permaneciam nas prateleiras por bastante tempo. Como nossa inflação não é tão grande como antes, não é tão necessário fazer publicações de consumo rápido. Eles podem permanecer um pouco mais de tempo na prateleira até o comprador levar. Não sei se isso é válido, dizer que a justificativa de preços tão acessíveis e produções de baixo custo se devam a crise e inflação galopante, mas pode ter um parcela de culpa.

Então a globalização e o fim da inflação galopante contribuíram para a maior expansão das HQs internacionais no Brasil?
Sem dúvida.

E você acha que isso prejudicou as HQs nacionais?
Com o fim da inflação, as empresas estrangeiras tinham acesso ao Brasil sem perigo de falência e sem precisar de administradores brasileiros. Pouco antes da estabilidade econômica, estava sendo discutida a implantação de empresas no Brasil com acordo territorial. Seria algo assim: A Renault instalava uma fábrica, dentro dessa fábrica o pagamento seria de acordo com a política financeira de seu país de origem, como se fosse um território francês. Quando o produto saísse da fabrica, aí a política financeira do Brasil com todos seus mecanismos de defesa da inflação entraria em funcionamento, mas seria a parte da empresa. Antes disso tínhamos acesso ao material internacional através da Metal Hurlant e outros estrangeiros que vinham por importação ou por meios indiretos. Claudio Seto trouxe muitos mangás e os quadrinistas que conseguiam ir a Europa traziam Bandas desenhadas de festivais. Não acho que isso tenha prejudicado a HQ nacional. Se antes, o material estrangeiro era complicado, e o que vinha influenciava os quadrinistas. Na década de 80 e 90, com a avalanche de material a linguagem gráfica do Brasil cresceu muito. Claro, com o fortalecimento da internet na metade da década de 90, entramos num outro período que não dependemos mais de material nas estantes. E essa temática ganha outra dimensão, mais complexa e discutível.

Wilton, há muitos desenhistas brasileiros trabalhando para editoras nos Estados Unidos. Porém roteiristas são muito poucos. Joe Quesada da Marvel disse em sua coluna no Myspace que os roteiristas de países cuja língua não seja inglês têm uma cultura diferente, por isso que é mais difícil para eles conseguirem um trabalho como escritor. Ele afirma que um roteirista de lá teria dificuldade em escrever no Japão ou no Brasil. Você Concorda?
Não.

Engraçado, eu também não concordo.
O caso é que no desenho temos a aparência direta de quem desenha bem ou não, e não tem a barreira da língua. Então vejamos: tem um monte de desenhista, mas você vê uma página feita e já escolhe o melhor. Tem um monte de roteiristas, muito, mas muito mais que desenhistas. Mas aqui no Brasil o cara tem que dominar o inglês para tentar lá fora. Entra um filtro. Ele tem que ter interesse para entrar lá fora, mas a propaganda já está com o desenhista e o colorista. Segundo filtro. Uma submissão de roteiro não se faz com uma página, então o cara que vai avaliar vai ver os roteiros de digamos, cinco páginas cada roteirista. Chega um momento que ele vai escolher pela nacionalidade, para filtrar. Mais fácil pagar e cobrar do vizinho que de um cara que mora em Pindaiuva do Sul de um país que falam espanhol chamado Brasil que a capital é o Rio. Esse é terceiro filtro. Como desenhista se dá melhor aqui, ele se acha o máximo, acha que nem precisa de roteirista em produções independentes. Quarto filtro. Daí são publicadas raras obras boas, e muito coisa sem roteiro bom. Brasileiro não sabe roteirizar quadrinhos. Quinto filtro. Coitado do bom roteirista, escrever roteiros de alguma coisa pode ser complicado sim. Exige menos que desenhar. Então o roteirista normalmente tem outros trabalhos para sustentar. Isso é geral, tanto aqui quanto lá fora. Por isso, o roteirista independente que quer se ver publicado, paga o desenhista. E isso forma um novo mercado.

Porém nem todos têm dinheiro necessário para pagar o que bons desenhistas cobram. E não são todos que aceitam parcerias. Que conselho você daria a um roteirista que está começando e quer encontrar uma parceria?
Não é bem assim que funciona. É assim: um fórum de quadrinhos é aberto e nele desenhistas colocam seus quadrinhos e roteiristas seus roteiros. Então tem uma sessão de parceria, uma sessão em busca de desenhistas pagos iniciantes, uma sessão de desenhistas pagos profissionais e assim um valor de mercado não tácito é estabelecido. O roteirista que não vai pagar, que fala de parceria, é avaliado por quadrinistas que buscam algo para fazer, para portfólio ou até, quem sabe, ganhar comissão na venda se o projeto for para frente. É um processo lento, mas funciona. Mas, se o roteirista está com pressa, ele quer ver publicado o quanto antes, ele segue dois passos. Um, ele pede submissões, amostras e orçamento. E pega o mais barato ou o que mais esteja próximo do que deseja. Dois, ele oferece o menor preço que viu oferecido, pergunta para colegas roteiristas. E têm vários. Depois, ele pega o material pronto e publica numa máquina gráfica funcional que orça na hora, imprime assim que recebe e até vende para o cara. Ou vai numa gráfica física que ele conhece. Ou vai numa editora e oferece o projeto. Quando ele fica mais experiente, ele estabelece um padrão de preço e tem uma lista de desenhistas que aceitam esse preço por um material razoável. Isso que estou dizendo não é o mundo das editoras. É um mercado marginal, atuante e que tem feito circular muito dinheiro.

Wilton, para encerrar, pois a entrevista já está longa: Você acredita na HQ nacional? Acha que um dia poderemos ter um mercado mais forte?
Sim. Não existe saída. Com tantos quadrinistas desenhando para fora. Em pouco tempo os roteiristas vão entender o que está acontecendo. As editoras já estão entendendo. A Cia das Letras já abriu uma sessão só de quadrinhos, com selo próprio esse ano. O Japão está em crise, e vai investir em exportação dos mangás. Isso é exemplo que empresários escutam, quadrinhos são motores para sair de crise. A grande questão não é se o mercado vai ser o mercado, mas como será esse mercado. Estamos com livros, mangás e fanzines. Mas o que vai resultar disso? E a questão da digitalização? Está formando um leitor diferente. O mercado vai ser forte, mas como será esse mercado que é o complicado. Você viu o prêmio Mix? Tem dezenas de sessões de premiações. Um prêmio Lucca em 1970 era simplório comparado com essa variação. Esses prêmios dão status a quadrinistas. Incentivam vendas e aumentam a procura do profissional. Tem premiação para editoras e não são poucas na lista. È só entrar no site e baixar os competidores em tabela Excel para conferir. Por isso o mercado de quadrinhos está sim ficando forte, mas não está bem definido seu formato.

Agradecimentos ao Wilton e até o próximo post!!!

3 Responses to “Entrevista com o desenhista Wilton Pacheco”

  1. EU TENHO UNS WEBCOMIX N0VOS, ACABRAM DE SAIR DO FOGO. CÊS PODIAM POR UM LINK PRA ELES?

  2. O link está ao lado, na lista de Webcomics. ;)

  3. [...] PDF Comics. [...]

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